terça-feira, 3 de novembro de 2015

poesias para crianças

Vou rir sim
Quando seus miolos explodirem
Quando os cabelos caírem
E os vermes consumirem
O que não te resta
Você não presta
Do dedão até a testa
Até a vida te acha indigesta
A única coisa que a morte respeita
É a espera
De te ver na sarjeta
Escondido como sujeira por debaixo do tapete
Apodrecendo
Tão rápido quanto foguete
Não vamos deixar nada de bom
Só destruição
O demônio conhecido por nação
Jesus foi embora antes da festa acabar
O sangue só começou a jorrar

Não vou te impressionar
Não vou falar de Jean Luc Godard
Não sei fazer selfie
Não sou alto astral
Não sei o que quero da vida e nem me pressiono para tal
Não vou analisar a conjuntura sociopoliticacultural
Posso te dizer que a contemporaneidade é uma merda
Que as pessoas são nojentas
Que as ruas fedem
Não vem me perguntar se eu tô bem
Porque estamos todos FUDIDOS


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

fim

transbordando
to sobrando
o cansaço vazando pelos lados da cadeira
nunca quis tanto estar em cantos
escondidos
nunca quis tanto estar longe de humanos
para viver
você precisa perder algo muito forte
eu ando sonhando com o fim dos sonhos
a realidade é isso aí

terça-feira, 20 de outubro de 2015

artistas de rua

A bola rola, a fita enrola
O carro gira sobre molas
Não quero esmola, não quero nota
Não precisa fingir que não me olha
Você paga milhões para assistir aos peões
Não precisa pagar nada para me ver
O vidro sobe, a vida corre
Você morre
E eu sigo por aí

Anarquia
Faça-você-mesmo
Todo mundo já foi artista no começo
Esse que você vê através do vidro
Não são desocupados, não são desesperados
São os punks em estado de amor
Pelo ódio
Daqueles que os olham como inferiores
Livres da cadeia de horrores
Da chamada sociedade atual
Que entopem os céus com os gases químicos
Enquanto observam o lançar de fitas e bolas pelo ar
Bom mesmo é nunca deixar de sonhar

Eu como palhaço
Eu como malabarista
Eu chamado de bêbado, na verdade equilibrista
Eu ganho uns trocados
Sei muito bem de onde vim
Vim para ficar
Na memória, na história, na estrada

Uma hora todo mundo volta pra casa

sábado, 29 de agosto de 2015

O homem na caixa

Na verdade o que eu sabia é que você sempre corria perigo
Gostava mesmo é de andar à caça de desafio
Eu nunca quis te dizer nada
Só não queria deixar de te ver
Mas a polícia é a manivela
Que gira a roda do esquecimento
Te jogaram onde só há lamento
Menino sem ambição, sem dinheiro e educação
Teu lugar não era na prisão
Teu lugar era aqui com a gente
Rodando bicicleta, rindo no domingo
Sua ausência diz mais do que queríamos saber

quinta-feira, 23 de julho de 2015

amantes

você espera pela próxima briga
e eu pela próxima mancada
somos dois anjos de uma asa quebrada
eu sei que se quiséssemos voar
a imensidão na cabeça
jogar a ferida pro ar
fazer do inferno e céu apenas nosso primeiro lar

mas ainda somos filhos de deus
e ele aprendeu com nossos pais
se não fazemos por merecer, ficamos querendo mais
e voar só é possível com tempo-espaço
para se localizar


terça-feira, 21 de julho de 2015

escritora

se eu não te devo tanta pureza
e ainda bem
te devo a minha beleza
olhos grandes, sobrancelhas maiores
jamais preocupada com pormenores
ela fez um diário para cada filho
minha mãe é escritora
assim como eu
autora da minha vida
que pra ela não começou assim, como uma poesia
quando tiraram sua alegria
tiram minha capacidade
de entender que a verdade
é que deve ser dita
eu questionei demais
eu sei
não me arrependo de nada
assim como não reclamo mais
hoje sei que mais importante que os pais
são as mães
mesmo que os psicólogos não concordem
e que minhas relações tenham sido fudidas

entre panelas e postos de gasolinas
escondidas atrás de muros, expostas nas esquinas
as forças divinas que concebem
ao quase morrerem
e ainda não descobri em que paraíso que padecem
e pedem colo ao mesmo tempo que dão
minha mãe
eu sei que eu nasci de uma paixão
queria que você sentisse isso de novo
eu só quero te ver feliz

terça-feira, 14 de julho de 2015

eu não quero ser, já sou

me expresso muito mal
menos quando escrevo
não preciso dizer todas as coisas que odeio
"tudo bem e você?"
prefiro o rodeio de montaria
aos rodeios que tenho que utilizar nessa vida

meu ouvido é penico
minha mente não é descarga
é muito finesse e pouca cara lavada
eu vou ler! eu vou fazer! eu vou assistir!
que tal experimentar parar de existir?
agora a comunicação é assim
espectador é produtor e vice-versa
e onde eu entro nessa conversa?

prefiro só sair

eu devo ser uma idiota mesmo
só assim pra continuar me afastando
do que nunca me esqueço
"quando crescer quero ser escritora"
nunca quis ser jornalista
não tenho compromisso com a verdade
isso é problema de vocês
eu só tinha razão com sete anos de idade