segunda-feira, 26 de abril de 2010

Insônia

Sonhando:


Me acorda de manhã pra dizer que vai embora
Levanta durante a noite pra sentir os pés no chão
Coloca as mãos no rosto para esconder os pensamentos
Se afasta de tudo pra tentar recuperar o juízo
Respira devagar pra não dizer que errou
Segura minha mão, mas não faça-a tremer
Solta seu último gemido sufocado
Escorre dentro de mim o seu gosto amargo
Conduz o movimento que enaltece a sensação
De estar aqui;
De te ter aqui;
De te ver assim...
Deita-se ao relento e me deixa procurar com as mãos
O lugar certo que te faz esquecer onde você está
Nunca quis mostrar ou nunca quis induzir?
O muito é muito pouco pra me fazer entender
Mas se destranquei as portas 
Entre sem bater


Quando o sono finalmente vem:


Roupas são fantasias para pessoas como nós
Cobertas pela alma densa, de verdades
Ainda espero te encontrar revestido apenas de sentimentos corpóreos
Ainda espero poder tocar em seus medos e desejos
Ainda espero poder comprar distinção
Ainda espero poder carregar essa vida...


(minha própria voz)
- Vou tentar dormir agora. Muita coisa pra fazer amanhã....


 Interrompida da minhas divagações e entreouvindo conversas em algum aposento ao lado, é sempre assim. À noite, facilmente meu corpo estará em meu quarto. Terrível é a vida de quem possui corpo e mente separados, como dois braços porém cada qual cumprindo uma função distinta
 Às vezes creio enlouquecer diante das impossibilidades. Controlo muitos impulsos, fortes o bastante para fazer uma pequena parte do mundo parar e, assim, passar a fazer sentido. Subjugo a vontade, já essencial, do dia em que nada mais precisará ser dito. Que te ouço dizer que vai embora, no amanhecer, e que me dá tempo e espaço pra fazê-lo voltar. Espaço nesse mundo, um universo que, senão eterno, é único.
 São tempos de fúria. Cada pedaço de mim pulsa constantemente, provoca palavras ditas, palavras escritas, insônia e orgasmos. Uma convulsão por dia, epilética antes de dormir e anêmica ao acordar.
 Ando a procurar por anestesia. Algo que adormeça todo o meu corpo e segure firmemente minha mão, minha boca e meus pensamentos, que me guarde dentro de mim mesma. Alguma anestesia imaginária porém bem localizada.
 Antes que eu me perca, antes que eu me perca de vista.





segunda-feira, 19 de abril de 2010

Direitos de uma canção


Se eu pudesse mostrar o que você me deu
Eu mandava embrulhar, chamaria de meu.
Melhor forma não há, pra guardar um amor.
Então preste atenção ou me compre uma flor
Vem, me faz um carinho, me toque mansinho,
Me conta um segredo, me enche de beijos.
Depois vai descansar, outra forma não há
Como eu te valorizo, eu te espero acordar.
Se eu ousar te contar o que eu sonhei.
Pode até engasgar, pagaria pra ver.
Melhor forma não há, pra provar meu amor
Eu te presto atenção, tento ser sua flor.
Vem, te faço um carinho, eu te toco mansinho,
Te conto um segredo, te encho de beijo.
Depois vou descansar, não vou te acompanhar.
Espero que entenda.
Vem, te faço um carinho, te toco mansinho,
Te conto um segredo ou te encho de beijo,
Depois vou descansar, não vou te acompanhar.
Espero que entenda e volte pra cá.

Te Valorizo - Tiê.





sábado, 17 de abril de 2010

Sobre os cinco sentidos

Pt. 5 - Final


 Relato de algumas horas atrás:


 Hoje acordei e senti o gosto de mudança.
 Passo a passo, me encaminhei para todos os cômodos da casa, em direção a um novo sentido de existência. Recém-saída de um sonho devastador, a realidade veio à tona assim que coloquei meus pés no chão. Como um dia qualquer, era um dia perfeito. Hoje eu poderia passear pela vida.
 Fui percebendo que tudo ganhara uma nova forma, uma nova viscosidade, uma nova causa. Rindo das minhas próprias tolices, perdendo o fôlego ao tentar manter a água dentro das mãos, desenhando em todas as paredes do banheiro impregnadas pelo vapor d'água. E então enrolava-me de qualquer jeito em uma toalha fina e deixava a frialdade da manhã cobrir minha nudez. Me joguei na cama, suspirando, exalando toda a tensão. Precisava me render ao dia que estava por vir. Perdida entre os diversos tecidos que se agarravam em mim, excitando-me com toda a estranheza de seres inanimados corresponderem aos meus desejos. Seguindo um mesmo ritmo: tocada, invadida, por dentro, por fora, invadida, mais profundamente e mais rápido...
 Era o efeito Trainspotting de viver.
 Excesso de mim mesma, transbordando por todos os poros. Cheguei ao ápice em questão de segundos. Havia passado por sensações intensas demais em um tempo de menos. Urgente era a necessidade de extravasar o que sou, que tenho fome de primeiras vezes. Eu havia chegado à estaca zero novamente, agora sim pronta para todo e qualquer embate.
 Rapidamente me vesti e saí de casa. Vento gélido e sol morno, meu clima preferido. Tempo bom, eu melhor. 
 Por todo o caminho fui ouvindo Interpol, "No I In Threesome", minha favorita. Um passo, dois, três. Threesome é um termo que designa todo tipo de relacionamento a três, sendo objetos, sentimentos, fatos, pessoas. Contava meus passos de três em três, cantando que "sozinhos podemos lutar, então apenas deixe-nos ser três esta noite". Muitas pessoas passaram por mim no caminho, me deixando com vontade delas. Sentia o gosto das "dades" descendo como água da cabeça aos pés: Vontades, saudades, felicidades, vontades, vontades...Lembrava das melhores partes de mim distribuídas pela cidade e o excesso de si mesmo já não era suficiente, queria algo mais para recordar. Uma mulher empunhando uma vassoura me fez lembrar da jovem senhora amiga dos ladrões do subúrbio. Uma criança andando de mãos dadas com a mãe me trouxe à cabeça o pequeno desenhista que marcava seus traços no mundo há apenas onze anos. Não pude deixar de sorrir. Não queria deixar de sentir aquilo.
 Em meus ouvidos a voz cantava exaustivamente: "So just let us be three tonight" e o threesome se repetia. Inevitavelmente, me lembrei dos olhos de um garoto que me ensinava a crescer, gigante, maior que as coisas à sua volta e melhor que qualquer definição de grandeza. Inevitavelmente, me lembrei do sorriso de um homem que me dera uma espada e me ensinava a lutar, melhor que qualquer definição de beleza, forte o bastante para segurar seu mundo na ponta dos dedos.
 As quatro pessoas mais importantes da minha vida, os quatro sentidos anteriores distribuídos em cada um. Eu, o quinto elemento, sou o gosto de descobri-los , de me incorporar a cada um de uma forma que encerre o ciclo.
 Era o efeito Trainspotting de viver e amar. Olhos abertos, pensamentos soltos, verdade nua e crua. Tudo uma questão de ouvir, ver, sentir, aspirar, degustar, todas experimentadas de uma só vez, só hoje. Um dia qualquer, um café meio frio, um clima agradável, desejos pulsando conforme as batidas do coração, meus segredos revelados. Um dia perfeito.
 Acordei e senti o gosto do presente.
 Quanto aos cinco sentidos, não terminarão por aqui. Ainda terei muitas páginas soltas, na linha do tempo...
 Saiba que o fim é só um começo.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Sobre os cinco sentidos

Pt. 4 - Audição

"Agora eu era o herói, e o meu cavalo só falava inglês..."

 Ontem aconteceu a festa de comemoração do meu primeiro ano de vida. Simples e perfeita. Mesmo para quem a própria existência ainda era algo inédito, o brilho excessivo e as luzes fortes daquele dia foram algo incomparável a tudo até então. Como uma representação do nascimento, pessoas e mais pessoas vinham até a mim, sorriam extasiadas e diziam-me coisas completamente sem sentido: "Ela está tão linda, já é quase uma mocinha, é a cara da mãe, essa vai dar trabalho...". E eu respondia a tudo com um toque na face do indivíduo e um olhar de incompreensão. Poderiam falar o que quisessem, pois a falta de conhecimento das palavras me divertia mais que tudo. Eles eram simplesmente coisas gigantes que andavam, faziam gestos estranhos e idolatravam a minha presença, minha pequena presença e meu minúsculo tamanho físico, fatos que contradiziam a grandiosa ousadia e atrevimento para imitar, criar, pensar e agir, talvez um pouco inadequados para tão pouca idade. "É mal de Julia...", minha mãe dizia, se caso fosse questionada quanto a isso. Cheia de energia, tanto quanto o nome.
 Como o dia 16 de março era dedicado à mim, meus parentes achavam-se no direito de fazer o que queriam, comigo. Era um cuidado inocente e uma terrível tortura para mim. Meu primeiro castigo foi ter que estar vestida de princesa para aquele dia. Como uma boa imitadora, eu tinha talento para incorporar muitas coisas: super-heróis, peões, apresentadores de tv, atores, cantores sertanejos, lutadores de boxe, animais selvagens...tudo, menos princesas. Apesar de não saber descrever a sensação, eu me sentia travestida, irreconhecível. Já tinha visto nos lugares onde havia passado que princesas representavam o sonho de consumo das menininhas e tudo o que eu não queria ser: feitas de cera, sem expressão, robôs na eterna espera pelos príncipes e reinados perfeitos, tolas, patéticas. Era isso. A minha vontade era entrar no ritmo da música que tocava, ser o cowboy da noiva, enfrentar os batalhões, os alemães e seus canhões, mas a fantasia carecia de cuidado e carinho da minha parte. Aceitei-a, só daquela vez.
 Passeando pelo meu reinado particular, no caso a minha festa, conheci uma outra criança, um garoto que aparentava ser um pouco mais velho e agia de acordo. Isolado a um canto, parecendo um estranho no ninho, me encantei de imediato por aquele pequeno. O assunto surgiu espontâneamente, meio de qualquer jeito porém muito real, mais real do que qualquer barulho que até então fora escutado. Uma conversa banal por um motivo qualquer, um vocabulário raso devido as respectivas inexperiências retóricas, nossas expectativas perante o bolo e uma relação de igualdade muito forte em um período de tempo muito curto. 
 Passamos o resto da festa juntos, como duas crianças, como dois revolucionários lutando pela mesma ideologia, como dois anjos, como dois demônios, como uma coisa só. Brincando de se descobrir e descobrir um ao outro. Não teve voz que não comentasse a união da princesa e o plebeu, embora agíssemos como dois ogrinhos. 
 Ele se escondia e eu deveria achá-lo. Não, não fuja não, finja que agora eu era seu brinquedo, Chico cantava. Eu era seu pião, porém ele era meu bicho preferido. Esqueci completamente das outras crianças, ao perceber que não era nenhuma delas que eu estava procurando para brincar. Pela primeira vez, eu podia tocar na face de alguém e pronunciar alguma coisa, ir além dos meus limites. Ele não era o príncipe, pelo contrário, agia bem diferente de um. E aquilo era a condição perfeita para eu me render, no meu status de realeza rebelde.

"Vem, me dê a mão. A gente agora já não tinha medo. No tempo da maldade, acho que a gente nem tinha nascido..."

O tempo passou, rápido demais...A festa foi chegando ao fim, as luzes, o brilho, os balões, a fantasia. Ele estava partindo tão depressa quanto havia chegado. Eu, que nunca havia ou haveria de me dar o direito de ser uma princesa, vi minhas vestes serem carregadas junto com o pequeno, e pela primeira vez viver me pareceu ser uma estranha ilusão.

"Agora era fatal, que o faz-de-conta terminasse assim..."

Fui entender muito tempo depois que a princesa e o plebeu era uma denominação muito fraca para João e Maria. Porque, ao contrário do que foi cantado, João foi quem sumiu no mundo sem me avisar. Esqueci-o completamente, até que, muito anos depois e o estágio da mocinha já ter terminado, a história se repetiu. Volta a acontecer, e como revivendo a mais bela canção da minha infância, agora eu era uma louca a perguntar...O que é que a vida vai fazer de mim?

quarta-feira, 31 de março de 2010

Sobre os cinco sentidos

Pt. 3 - Tato. Ou Trauma.


 A partir daquele dia, meu nome era Satine. Ela era um clone para mim, era inacreditável que aquela fosse eu mesma, minha própria personalidade. Ao atingirmos os 16 anos, éramos iguais. A minha história e a história dela partiram do mesmo ponto em comum: o trauma.
 Foi o chão de batalha onde minhas decepções amorosas nasceram e cresceram. Onde comecei a me envolver com a auto-destruição, a falta de amor próprio e o abuso de mim mesma. O lugar onde me convenceram que o que eu via no espelho era a imagem cuspida de um monstro feioso. Onde conheci o homem baixinho, branquelo e ranzinza com olhos de raio X, que me despia com um simples olhar. O homem que estuporou as paredes baixas dos meus pensamentos por meses e meses e me deu de presente meu primeiro grande trauma - "a arte do sexo que você não quer", como eu chamo. Um homem sem caráter algum, que refletia as ações infiéis do pai em cada movimento. Que me ligava de madrugada e interrompia meu sono, sussurrando que gostaria de me ver, com uma hipocrisia sedutora.
 Eu, 16 anos. Ainda com o mesmo ritmo dos 14, com o mesmo sorriso e com todas as partes do corpo, externas e internas, intactas. Eu não me fazia de difícil, era praticamente uma criança - inexperiente e ingênua, sonhando com o perigo e com a sensação adictiva de fazer algo ilícito.  Foi quando ele entrou na minha vida, para me estraçalhar como um cachorro raivoso. Porque ele era isso e mais nada - um animal com raiva.
 Nosso primeiro beijo aconteceu antes de qualquer palavra ser pronunciada por nossas bocas, e as mãos nos meus seios vieram antes da língua. Foi terrível e agressivo, mas me senti desejada. Ele era mais velho, me cobiçava e fazia com que eu me sentisse no mínimo bonita, quando havia crescido com o apelido de "besouro" no meu antigo bairro. Naquele momento eu descobri que um beijo não iria pará-lo, que ele não iria desistir enquanto não me possuísse barbaramente e por fim conseguisse dilacerar toda pureza que ainda restava. Era o que eu chamava de síndrome de rei, tinha tudo o que queria bem na palma da sua mão.
 Como um devido monstro, ele estava com um gosto repugnante na boca naquele dia. Eu queria vomitar aquele gosto e o arrependimento irredutível que havia dentro de mim. Suas mãos dentro da minha calça me machucavam, não me davam prazer. Ele não era porra nenhuma, mas eu continuava, pois era uma história para o besouro contar. Eu não tinha mais o que fazer.
 Era um quarto desconhecido, da casa de uma colega ainda mais desconhecida, em uma festa da qual eu não havia sido convidada. Todos os sinais indicavam que não era para eu estar lá. Eu precisava ir ao banheiro, estava bêbada e tonta, só querendo dizer que era o fim da festa para mim e afundar em minha cama para dormir eternamente. Ele levou-me para o quarto da anfitriã, mordendo os lábios inferiores, enquanto a minha maior vontade era pedir para que ele me soltasse e seguisse seu caminho direto para o inferno. Mas eu não conseguia dizer nada. Besouro abaixou as asas.
 Sentei na escrivaninha do quarto procurando me controlar, procurando amenizar minha tontura, quando ele veio em minha direção. Eu estava consciente, porém molenga e nauseada. Seus lábios finos se aproximaram e me arrancaram um beijo indesejado. Olhei para ele como se não estivesse lá, através do seu corpo, procurando bloquear sua imagem, procurando expulsar sua presença por telepatia. Ele me pegou com vigor pelos braços e me jogou na cama. Encarando o teto, pude ver as estrelinhas que brilhavam no escuro, grudadas. Eu costumava fazer pedidos a elas com espírito de criança intocada que não conhece o mundo. Ele estava em cima de mim e eu queria que ele saísse. Tentei empurrá-lo, mas não consegui, não tinha forças e ele segurava meus braços com uma única mão. Parei de reagir e olhei nos seus olhos:
 - Pára, eu não quero!
 - Não fala nada. Relaxa. Vai dar tudo certo.
 - Não, por favor, eu não quero, tô falando sério!
 Naquele momento eu faria qualquer coisa, menos relaxar. Via seus poros oleosos perto demais e suas espinhas pareciam ter se multiplicado. Pareciam estar prontas para explodir e jogar pus nos meus olhos. Tentava afastá-lo a qualquer custo. Mexia-me de um lado para o outro neuroticamente pedindo para ele parar. Gritando que o odiava. Mexia-me de maneira tão brusca que acabei batendo com a cabeça na mesinha-de-cabeceira. Machucou e eu fiquei ainda mais tonta. Virei para o lado e vi uma foto embaçada de uma criança, sorrindo e abraçando a mãe. Sentia nojo de mim mesma deitada em sua cama, em seu cobertor de flores, no seu quarto de paredes rosa-forte. Completamente presa, finalmente me rendi, finalmente me deixei morrer. Fechei os olhos e o deixei me conduzir freneticamente durante vários minutos de dor insuportável. Quando acabou e parou de soltar seu gemido repugnante, se jogou ao meu lado. Então, eu finalmente consegui empurrá-lo.
 - Agora você vai embora, não é? - perguntei, e uma voz estranha saiu da minha garganta. Trêmula, segurei as lágrimas e esperei a tempestade acalmar.
 - Ih, que isso, quer que eu vá embora eu vou...
 - Não estou te mandando embora, apenas sei que vai. É o que sempre faz.
 Ele levantou, vestiu sua bermuda e olhou para minha figura com um ar zombeteiro. Deu uma risadinha sarcástica e saiu do quarto arranhando o chão, sem dizer mais nada.
 Vesti-me rapidamente, corri ao banheiro e olhei no espelho. Eu não conseguia acreditar que aquilo era eu. Eu sentia tanta dor! Aquele momento iria fazer quem eu viria a ser? 
 Corri para fora da festa, alguém me seguiu, condoído pelo meu estado de calamidade. Esse alguém me trouxe para casa, me sugerindo mentiras para contar à minha mãe, algumas das quais eu acabei realmente usando, sem opção nenhuma de roçar nela minha dor. A noite estava perdida para sempre, para afogar minha alma em sensações de culpa. Besouro esmagado.
 No dia seguinte acordei e fui direto ao banho, onde percebi que a calcinha branca estava coberta de sangue. Era sábado e chovia forte, o céu parecia chorar em lamento. Passei horas debaixo de um chuveiro de água fria, chorando e sussurrando.
 Lavando minha pele, esperando que expulsasse o pecado latejante de dentro de mim.
 "Rogai por nós, pecadores...
 Esperando que minha vergonha fosse carregada ralo abaixo e se juntasse à podridão dos esgotos.
 ...agora e na hora de nossa morte...
 Parecia estar ardendo de febre, imóvel sob uma água congelada, desejando não estar viva.
 ...amém."



terça-feira, 23 de março de 2010

Sobre os cinco sentidos

Pt. 2 - Olfato


Hoje eu pude vê-lo. Claramente, sem maiores ou menores obstáculos. Tentei enxergar através de sua alma, mas a intuição me disse para esperar por todas 
as cinco etapas passarem para finalmente tê-lo dentro de mim, como um organismo vivo que parasitasse todas as outras funções. Subi no telhado de sua casa, pisando devagar e escorregando ligeiramente entre as telhas soltas. Uma resma do sol poente brilhava no horizonte, descendo devagar, escurecendo aos poucos, deixando o ar mais gélido enquanto a escuridão me abraçava. Ele estava lá, jogado ao relento, se dormia eu não saberia dizer. Os olhos fechados, a boca semi-aberta, os braços cruzados no peito.
Deitei ao seu lado tentando não despertá-lo desse transe, mal ousando respirar. O efeito da bebida era instantâneo, mas o desejo de me manter sóbria para poder admirá-lo era maior. Ele exalava a Stella Artois, seu perfume típico, e mais alguma fragância que eu não saberia descrever. Era única, era humana, era a minha fonte de escape do mundo real para dentro do mundo dele. Aqueles cheiros e as sensações que eles me causavam me empurravam para mais perto do seu corpo, ainda tentando não tocá-lo, me parando a milímetros de distância. Era uma onda que me cobria o corpo, e mais um pouco eu poderia me afogar. Encostei em seu rosto, me entorpecendo de vez, sentindo, sentindo, sentindo..
Sussurei. 
'" 'Cause you're beautiful in every single way..."
"Andou ouvindo Christina Aguilera?" - Abri os olhos e vi outros dois me encarando, castanho-escuros, me pedindo para devorá-los.
"Eu estava pensando em Elvis Costello"
"Ah..." - ele voltou os olhos para o céu, e sorriu. - "Continue."
"Continuo sussurrando ou olhando para você?"
"Os dois. São mais excitantes juntos."
Pensei: sim, igual a eu e você. Só os dois. Como se não existissem um sem o outro.
"Words can't bring you down..." 
Eu deveria cantar para meu espelho. Ele não precisava de reafirmação. Ele sabia que nada poderia derrubá-lo, principalmente enquanto eu estivesse
viva para poder segurá-lo.
"...so don't you bring me down today."
Mas eu não. Eu poderia cair daquele telhado naquele exato momento, se sua presença não estivesse lá pra me impedir. Então, não me deixe pra baixo..eu pedia, naquela canção.
"Olhe aqui..." 
Abri os olhos. Ele estava mais uma vez me olhando. A boca ainda semi-aberta, embriagada, procurando pela minha. Sentia, pela primeira vez, um hálito
forte como nada existente, como nenhuma bebida qualquer. Ali estava minha redenção, a razão de eu estar sempre ao seu lado, insistindo em silêncio
por um momento só meu, só dele e só meu.
Talvez eu ainda fosse muito ingênua. Mesmo sendo realidade, era quase uma réplica dos meus sonhos. Não tive coragem de tocá-lo, permaneci estática, 
inalando toda aquela tensão, com medo de tudo evaporar se caso eu me movimentasse. Bem de longe, ouvi ele dizer:
"Não posso fazer isso. Não agora."
Não. Não diga isso. Don't you bring me down today..
"Mas isso não quer dizer que eu não quero fazer. Apenas..vamos nos levantar. Vamos acordar. Eu te prometo voltar aqui algum dia."
Vai voltar, vai voltar...
"Só espere, um pouco."

quinta-feira, 18 de março de 2010

Sobre os cinco sentidos

Pt. 1 - Visão

Por causa da forte chuva que caía naquela madrugada, tive que acabar com meus últimos centavos pegando um táxi. Um repentino mau-humor tomou conta de mim, não saberia dizer se mais pela falha nos meus planos de passar a noite vagando pelas ruas, tentando arrumar o juízo em forma de ser humano para me salvar, se pela falta de responsabilidade ou de uma Stella Artois. Desliguei o celular e esperava que as pessoas pensassem que eu estava tão perdida quanto às chamadas que faziam para mim. Na realidade, eu não estava...Sabia exatamente onde eu queria chegar, o problema era como chegar. Perguntei ao taxista, um homem rude e sem feições, se havia formas de pegar uma rota mais econômica ou até que ponto eu gastaria para chegar ao mais próximo do inferno. Ele me encarou pelo retrovisor e vi um brilho ameaçador nos seus olhos.
"Por que não me disse antes que não tinha para onde ir, menina?"
Mandei parar ali mesmo. O perigo era iminente, e eu não estava afim de brincar de Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau. Melhor seria ficar no bosque, correndo involuntariamente o risco de encontrar monstros piores.
Andei sem saber bem pra onde, deixando minhas pernas me levarem, por um bom tempo. Elas pareciam saber onde ir. Fui contando os blocos de cimento pelo caminho, tentando regular as passadas e não parecer tão fora de mim. Mas não adiantou. Quando dei por mim, estava no mesmo lugar, com a respiração ofegante, sem forças pra continuar. Estava às portas da casa dele, e em meio a um silêncio sepulcral, pude até mesmo ouvir seu coração bater. 
Certamente o meu pode ser ouvido também, pois como se os dois batessem em um mesmo ritmo inflexível, ele apareceu à janela. Os cabelos grandes bagunçados, um sorriso brincando em seus lábios, a pergunta de sempre fluindo pelos olhos
"Por que você voltou?"
Eu disse que não era nada. Era só pra ver se eu saberia como voltar, se caso um dia ele precisasse de mim. Devia estar em um estado deplorável, pois ele abriu a porta e as mãos que me agarraram eram armas prontas para a destruição total. E se eu estivesse bem, aquilo jamais aconteceria.
Suas mãos me levaram para dentro, eu passei entre as paredes olhando tudo como se não estivesse visto aquele lugar muitas e muitas vezes. A vez anterior, e a anterior da anterior, eu tinha jurado que eram as últimas. Como uma luz fraca no meio da minha escuridão interior, reuni forças pra cumprir meu juramento e me virei para ir embora para sempre. Ele me segurou com o olhar, sabia perfeitamente usá-lo contra mim, sabia exatamente onde era a chave para os meus segredos...Fui jogada contra a parede, o celular caiu no chão e se espatifou. Eu estava me perdendo, finalmente.
Ao bater com a cabeça, tudo ficou ainda mais turvo do que já estava, e tudo que eu conseguia ver eram imagens distorcidas, que se confundiam com o que eu já tinha feito e com o que eu estava prestes a fazer. Sabia que minhas roupas estavam sendo rasgadas pouco a pouco, que naquele momento nada poderia ser mais prazeroso que isso para ele, tinha consciência que ele sussurrava em meu ouvido, sentia suas mãos apertando meus seios e um arrepio de desespero percorreu-me a espinha como um pavio em chamas. Era sempre uma batalha perdida, eu me deixaria invadir completamente, vestida apenas com minha máscara da fraqueza.
Fechei os olhos. Vi sua boca percorrendo meu corpo em todos os lugares, como se não os tivesse explorado o bastante. Lá fora, nem mesmo os postes de luz estavam acesos. O mundo queria me deixar cega perante minha própria perdição, se para me poupar ou para me castigar...não sei.
"Você é tão linda, você é tão linda..Eu poderia ficar aqui, te sentindo, para sempre..."
Quantas vezes ele iria repetir?
"Mas você nem mesmo me enxerga."
"Eu estou aqui com você, você está aqui comigo. Isso basta."
Então, aquela noite eu era sua. Não, ele nem mesmo me enxergava. Nós sequer falávamos a mesma língua. Eu queria sair, sumir, me transformar em pó entre seus braços, e ele dizia que eu queria ficar. Tentando me convencer a acreditar...Me apertou ainda mais, e eu senti, como se um tiro tivesse atingido o cérebro, um apagão fulminante na minha consciência, minhas sinapses queimando terrivelmente e nada mais ser processado, apenas um desejo maníaco de possuí-lo até a alma. Não precisava de muito para me despertar os instintos mais primitivos e selvagens, era apenas provar um pouco de dor que o efeito era instantâneo. A dor.
Como se os papéis estivessem invertidos, peguei sua mão e a conduzi do começo ao fim. Pude até senti-lo tremer ligeiramente. Levei-a até entre minhas pernas, e o que ouvi era uma voz que até então não estava tão exasperada:
"Ei, é você mesma?"
Medroso.
"Talvez. Quem você acha?"
"Mas..o que você está fazendo?" 
Sublinhe a palavra você. Aquilo realmente estava ficando bom. Pela primeira vez, era eu quem estava no comando do jogo.
"Nada. Apenas tentando descobrir a graça de ter seu dedo em meu clitóris. Nada de estranho"
"Nossa. Por que não me disse que estava olhando? Porque não me avisou que não estava com medo?"
"Mas eu não estou com medo. Isso sim é estranho. "
Fazia movimentos aleatórios enquanto dizia. Se não soubesse como brincar, talvez teria um orgasmo ali mesmo.
"Você está me vendo agora?"
"Não. No escuro eu enxergo melhor."